A hora e a vez do controle biológico no agronegócio brasileiro

Em tempos de crescente demanda do mercado por uma agricultura sustentável, o Workshop sobre Controle Biológico de Pragas e Doenças nas Culturas, agendado para o próximo dia 17 de maio, durante a Agrobrasília 2017 – Feira Internacional dos Cerrados, no Distrito Federal, será o pontapé inicial para a criação de uma frente ampla de apoio ao fomento do uso de biodefensivos no agronegócio brasileiro. Promovido pela ABC Bio – Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico, em parceria com a APDC – Associação de Plantio Direto do Cerrado, o evento conta com o apoio da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP).

Alfonso Sleutjes, presidente da FEBRAPDP, comenta que a expectativa é que os resultados das discussões durante o encontro possam nortear melhor a atuação técnica e política da entidade junto ao segmento crescente. “É preciso incentivar eventos para divulgar e incentivar a adoção desta prática. Queremos mostrar para a sociedade que com o advento desse tipo de manejo reduziremos muito a carga de defensivos por tonelada de grãos.”, explica.

Fruto da iniciativa de John Landers, pesquisador pioneiro do Sistema de Plantio Direto no país, a reunião marca o início de um intercâmbio de experiências entre produtores, técnicos e profissionais da área, com o propósito de mapear desafios e propor alternativas para a disseminação de conhecimento e aplicação da técnica nas lavouras.

De acordo com ele, de todas as alterações que os biodefensivos causam à rotina do produtor, o monitoramento é a etapa mais crítica, porque é preciso projetar a evolução do organismo a ser controlado para aplicar o controle biológico no momento mais propício, que não oferece efeito imediato. Além disso, é preciso escolher defensivos agrícolas que não afetem os agentes de controle biológico.

Landers avalia ainda que o custo do controle biológico já é competitivo em relação ao controle químico tradicional, mas que a ampla aceitação da prática de utilizar inimigos naturais para controlar pragas e doenças nas lavouras ainda necessita de esforços para se consolidar. Na avaliação dele, será necessário quebrar um paradigma na mente dos agricultores, que precisarão assimilar os benefícios de deixar a natureza trabalhar no seu tempo.

“O controle biológico pode ser uma verdadeira arma para melhorar a qualidade da produção e a imagem da agricultura brasileira frente ao consumidor. Porém, precisamos entender o cálculo de risco do produtor, que não vai arriscar sua colheita com uma técnica não comprovada por ele. Precisamos promover áreas pilotos para treinamento dos trabalhadores e tomadores de decisão. Inicialmente, o produtor deve adotar um processo MIP, que utiliza defensivo apenas em caso de emergência. Ao dominar a técnica de CB essas intervenções, seriam minimizadas, à medida que o produtor ganhe experiência e confiança, assim como aconteceu com Plantio Direto.”

A exemplo do que ocorreu  anteriormente com o sistema de Clubes Amigos da Terra, utilizados para difundir o SPD, John também aposta na promoção de encontros, como dias de campo e  demonstrações comparativas de custos, a fim de provocar a curiosidade dos produtores rurais que ainda não estão familiarizados com a tecnologia.

“Cada um contribui com alguma experiência exitosa sua, de modo que se crie um pool sempre crescente de conhecimento prático e uma fonte de realimentação da pesquisa. O que o produtor rural precisa ver funcionando no campo, é outro produtor ganhando dinheiro com esta técnica ou, no mínimo, empatando com o controle químico”, afirma.

Por outro lado, dados da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico, indicam que a indústria do biocontrole deve crescer anualmente cinco vezes mais rápido do que a indústria de defensivos convencionais. Amália Piazentim Borsari, diretora da ABC Bio, ressalta que a tendência é de que este segmento cresça, nos próximos anos, entre 15 e 20% do mercado total de defensivos agrícolas no Brasil, acompanhando a evolução média do mercado internacional, cujos estudos apontam para uma expansão média de 16% ao ano.

“Os biodefensivos tem uma expectativa de crescimento robusto pelos seguintes motivos: nova mentalidade do setor produtivo – o manejo integrado de pragas cresce num ritmo acelerado e os defensivos biológicos são primordiais neste sistema; oferta limitada de novas moléculas – a química convencional está esgotada, pouquíssimas moléculas novas em fase de registro; foco em uma agricultura mais sustentável – busca por produtos menos tóxicos ao meio ambiente e ao homem; evolução da resistência das pragas aos produtos sintéticos – uso de defensivos biológicos estendem a vida útil de produtos sintéticos e do controle pela transgenia; avanços tecnológicos oferecem caminho para desenvolvimento potencial de produtos biológicos mais eficientes; menos burocracia – a pressão regulatória pela gestão de resíduos favorece a aprovação de produtos mais seguros e naturais; aumento da demanda do consumidor e supermercados (busca por produtos com resíduos zero); entre outros.”, analisa.

Amália defende que o controle biológico veio para complementar o controle químico, numa parceria harmoniosa, na qual os defensivos convencionais também compõem o manejo integrado de pragas, promovendo equilíbrio e sustentabilidade.

“A ideia é utilizá-lo sempre que necessário, quando outros métodos não são suficientes para o controle de determinada praga. Os defensivos biológicos chegaram para compor um pacote de ferramentas de manejo que promovem a redução de danos econômicos e a supressão do uso descontrolado de agrotóxicos. A principal vantagem dos defensivos biológicos é que eles não deixam resíduos nos alimentos, são de baixa toxicidade ao aplicador e pouco perigosos ao meio ambiente.”, conclui.

História

A literatura relata como primeiro sucesso mundial de controle biológico, a experiência registrada na Austrália, em 1914, para controlar uma cultivar espinhosa do cacto Opuntia, que começou a inutilizar grandes áreas de terra. Sem obter sucesso com o controle mecânico e químico, o governo de Queensland introduziu três pragas de Opuntia, (Dactylopius ceylonicus, D. Confuses e Cactoblastis sp.), mas somente os primeiros, da familia das cochonilhas, funcionaram. Em poucos anos a Opuntia foi totalmente debilitada e erradicada.

No Brasil, o primeiro caso relatado ocorreu em 1966, em Piracicaba (São Paulo), quando o Research Institute (IRI), introduziu a micro-vespa Neodusmetia sangwinii para controlar a cochonilha Antonina graminis no capim Pangola, que havia introduzido como pasto excepcionalmente produtivo na época.

Fonte: FEBRAPDP