Agronegócio: Atraso na entrega de adubo e insumos ameaça produtividade do setor

Reflexos – Os dois episódios refletem a confusão enfrentada pelo agronegócio, após a greve dos caminhoneiros, que resultou no tabelamento do preço do frete e na disparada dos custos para o setor. Esse cenário põe em risco a produtividade da próxima safra e ameaça o setor, um dos poucos com desempenho favorável, que tem garantido saldo comercial e inflação sob controle.

Consequências – Especialistas ressaltam que o produtor não vai deixar de plantar, mas pode adubar menos e colher um volume bem menor. Em Mato Grosso, principal produtor de soja, só um terço do adubo foi entregue até agora comparado ao mesmo período do ano passado, conta o presidente da Aprosoja-MT, Antonio Galvan.

Paraná – No Paraná, o primeiro na produção de milho, 40% da distribuição de insumos, que incluem além do adubo, sementes e fungicidas, está comprometida, diz o presidente da Organização da Cooperativas do Paraná, José Roberto Ricken.

Confirmação – David Roquetti Filho, diretor da Anda, que reúne a indústria de adubos, confirma os atrasos. Diz que houve uma redução de 2,3% nas entregas no 1.º semestre e ressalta que Mato Grosso é o Estado mais afetado. Duas saídas estão sendo usadas pelos fabricantes de adubos para resolver o atraso nas entregas por conta do tabelamento do frete. Há indústrias que chamam para renegociar preços já fechados. Outras liberam o adubo para o produtor retirar. Mas nenhuma das estratégias está dando certo. “Uma vez vendido, está vendido, ninguém quer pagar a diferença”, diz Galvan.

Futuro – A venda antecipada de soja em Mato Grosso parou em 21% da safra desde o fim de maio, bem abaixo do normal para a época do ano (33%), informa o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária. No País, essa marca é bem menor, está 16%, segundo a Abiove, que reúne a indústria de óleos e as tradings. A dificuldade de definir preço paralisou os negócios.

Macroeconomia – Do ponto de vista macroeconômico, o quadro também é “preocupante”, alerta Fabio Silveira, sócio da consultoria Macrosector. Nas suas contas, a safra de grãos, de 230,7 milhões de toneladas neste ano e que poderia subir para 257 milhões de toneladas por causa do cenário favorável no mercado externo e da desvalorização do real, deve ficar entre 237 a 238 milhões de toneladas. A receita, deste ano de R$ 242,7 bilhões e que poderia subir para até R$ 270 bilhões em 2019, agora foi revisada para R$ 242,7 bilhões. A analista da MB Agro, Ana Laura Menegatti, concorda: “Se esse quadro persistir, a produção e a receita serão menores”.

Preocupação – Em outros anos, nesta época, o produtor Antonio Pedrini, há 35 plantado soja e milho, já estaria com todos os insumos em casa. É que normalmente, logo após a primeira chuva, depois de 15 de setembro, ele começa a semear os 1.200 hectares que cultiva em Maringá, norte do Paraná. Mas neste ano a situação é diferente: o galpão, onde armazena o adubo e sementes, está vazio e ele, preocupado.

Mercado – Enquanto Pedrini aguarda a entrega dos insumos, ele tenta se resguardar dos altos e baixos do mercado de soja. Até agora, o agricultor vendeu 25% da safra de soja que ainda não plantou nem recebeu a semente nem o adubo. “Tem anos que, nesta época, eu já tinha vendido um volume maior”, lembra.

Tradings – No entanto, diante das incertezas que existem no mercado, as tradings estão com medo de fechar negociações futuras, isto é comprar a soja verde, antes do plantio, como é conhecido esse negócio no mercado de commodities. Segundo o agricultor, o preço atual da soja no Paraná, na casa de R$ 77 a saca de 60 quilos, está “razoável”. Daniel Amaral, gerente da Abiove, que reúne as indústrias de óleos e as tradings, explica que a insegurança no fechamento de negócios futuros ocorre porque ficou mais difícil calcular custos e preços após o tabelamento.

Fonte: O Estado de S.Paulo

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