Braquiárias: vilãs ou vítimas dos problemas nos animais?

Por Marco Aurélio Factori e Elcio Ricardo José de Sousa Vicente

As tão famosas e conhecidas braquiárias (Urochloas), são em sua maioria, originárias do continente africano. Por meio das mais diversas espécies existentes, por volta da década de 90, as braquiárias espalharam-se por todo o mundo, graças às suas características próprias e individuais como resistência à seca, alagamentos, doenças e pragas, além de serem de fácil multiplicação e adaptabilidade.

No Brasil não foi diferente e, graças a elas, conseguimos “colonizar” com o gado praticamente todo o interior do Brasil – de norte a sul. Sendo assim, as pastagens brasileiras, em seus quase 180 milhões de hectares, são em grande parte, formadas com pastagens de gramíneas do gênero Brachiaria.

No entanto, atualmente, os capins do gênero Brachiaria, passaram a ter outra nomenclatura, chamada de Urochloa (taxonomicamente), mas tal mudança do nome não altera as características individuais de cada espécie ou variedade já conhecidas por nós, as quais podemos citar:

– O chamado Braquiarão (Brachiaria brizanta) e seus diversos cultivares como: MG-4, MG-5 (ou Xaráes) Vitória, Marandu, Piatã, entre outros. São muito utilizados para rotacionar as vacas de leite, pois possuem de média a alta produtividade e são relativamente menos exigentes em fertilidade do solo quando comparados às do gênero Panicum, como o Tanzânia e o Mombaça;

– A Brachiaria arrecta, conhecida pelo capim braquiária do brejo. Suporta o alagamento nas áreas de baixadas que são alagadas temporariamente ou com umidade moderada;

– A Brachiaria mutica (no Brasil chamada de capim angola). Ela vegeta áreas de várzeas ou também, sujeitas às inundações;

– A Brachiaria ruziziensis (cv. Ruziziensis) é a mais indicada e utilizada na integração lavoura pecuária. Não é usada nos sistemas leiteiros por falta de aquisição cultural;

– A Dictyoneura é a Brachiaria humidicol. O seu cultivar, o Llanero, é utilizado também na formação de pastagens para equinos;

– A Brachiaria decumbens (cv. Balisk) e a Brachiaria humidicola são chamadas popularmente de braquiarinhas. Elas são famosas por causar intoxicação nos cavalos (“doença da cara inchada”). Para as vacas leiteiras, elas são totalmente possíveis de serem utilizadas mas produzem pouco por área e por isso, suportam baixas lotações. Ainda, são acometidas pelas cigarrinhas das pastagens, fato preocupante para os diversos sistemas que as utilizam.

Dentre as mais diversas espécies naturais existentes, além das que vêm sendo criadas ao longo dos anos pelas empresas, pode-se dizer que existem braquiárias para todos os gostos e tipos de solos, podendo ser elas mais ou menos exigentes em nutrientes. Elas podem se adaptar nas mais diversas regiões do país, como já mencionado, sejam elas amparadas por solos ricos em matéria orgânica, ou pobres, de baixo pH, podendo até conter alumínio, ou até mesmo serem solos alagados.

Como podemos perceber, as Urochloas passaram por diversas evoluções e adaptações ao longo de milhares de anos. Sabe-se que algumas braquiárias como a humidicola e a decumbens, são ricas em oxalatos, assim como outras gramíneas, entre elas a Kikuio (Pennisetum clandestinum), a Setaria asceps cv. Kazungula, a Digitaria decumbens cv. Transvala e entre os Panicum, o Panicum maximum cv. Colonião, entre outras.

Problemas relacionados ao consumo das braquiárias

Para os bovinos, a fotossensibilização é o problema mais comum de acontecer. Mas o que é a fotossensibilização? É um distúrbio que acomete principalmente os ruminantes, sendo os jovens os mais susceptíveis. Os aspectos patogênicos da fotossensibilização estão diretamente relacionados à ação da esporodesmina, que é uma toxina presente nos esporos do fungo Pithomyces chartarum encontrado normalmente na massa vegetal morta (no caso da Brachiaria em função do seu hábito de crescimento decumbente) especialmente das pastagens cultivadas.

A toxina provoca lesões nos ductos biliares do animal, prejudicando o fluxo da bile (indispensável no processo digestivo), impedindo que ocorra a eliminação da filoeritrina (liberada com a bile) pelo organismo (processo normalmente efetuado nos animais sadios).

Com a impossibilidade de ser eliminado junto com a bile, a filoeritrina, resultante do metabolismo normal da clorofila presente na planta forrageira, se acumula na circulação periférica e, com a incidência dos raios solares, induz às lesões cutâneas (feridas com aspectos de cicatrizes na pele). O tratamento consiste no uso correto de manejo, mudando o animal de pastagem, utilizando outra espécie ou cultivar de forrageira, promovendo sombra e ainda, administrando algumas medicações. Todas essas medidas são importantes, mas o manejo adequado é a melhor saída.

Além disso, as braquiárias também ‘levam a fama’ de intoxicar os equinos. E por que isso acontece? Será que as braquiárias humidicolas ou decumbens são mesmo as vilãs? Elas são tão ruins que acabam matando os cavalos por intoxicação ou também são vítimas como os cavalos já que a maioria dos problemas ocorre devido ao manejo errado? Vale lembrar que a doença que acomete os cavalos relacionado ao consumo de braquiária deixa-os com a cara inchada e se chama hiperparatireoidismo nutricional secundário ou osteodistrofia fibrosa.

Como as braquiárias produzem uma boa quantidade de massa seca e são poucos exigentes em fertilidade do solo, além de fácil formação e manutenção, são também utilizadas na alimentação dos equinos como já mencionamos. Porém, muitos cavalos acabam se intoxicando pelo fato de não terem outras opções de consumo além da B. humidicola, fato que potencializa o surgimento do problema. O animal precisa ter outras opções de capins na hora do consumo. Mas o que acontece com a B. humidicola?

Assim como em outras braquiárias e outros capins citados acima, ela produz uma substância chamada oxalato e que, ao ser ingerida, gera uma dificuldade na absorção de cálcio pelo organismo dos animais (principalmente equinos). E como isso acontece? O oxalato se une ao cálcio e forma um quelato, que é eliminado pelas fezes, impedindo que o cálcio realize as suas funções vitais. Consequentemente, o cálcio é retirado dos ossos dos animais a fim de suprir a deficiência causada no organismo.

Além disso, é muito comum estar aliada a isso uma dieta desequilibrada, com o uso de um sal inapropriado para equinos, fornecimento de grandes quantidades de grãos de milho ou farelo de trigo (que com o tempo, podem contribuir com o excesso de fósforo na dieta), entre outros.

Por mais que os níveis de cálcio estejam certos, o excesso de fósforo, após alguns meses, causa um desequilíbrio na relação Ca:P. Por isso, o consumo de braquiárias (oxalato) dia após dia, bem como, o excesso de fósforo na dieta sem os devidos e mínimos cuidados, podem resultar em um cavalo doente e com risco de morte se o diagnóstico não for rápido, correto e preciso.

Em suma, a utilização do capim braquiária hoje é realidade. Com certeza, para os produtores, se a utilização da braquiária é ruim, pior seria sem ela, já que é um capim mais rústico e que tolera desaforos pela falta de manejo ou até mesmo adubação. O que falta é entendimento já que, como todos os capins, as braquiárias requerem particularidades e, se elas forem atendidas, com certeza a produção animal irá ganhar muito com o seu bom uso nos sistemas de produção.

Marco Aurélio Factori    Presidente Prudente – São Paulo – Professor na UNOESTE – Presidente Prudente Zootecnista, Dr. em Zootecnia pela FMVZ/UNESP – Botucatu SP. Manejo de Pastagens, Conservação de Forragens e Nutrição Animal com foco em nutrição de Ruminantes.

Elcio Ricardo José de Sousa Vicente    Presidente Prudente – São Paulo – Professor na UNOESTE Presidente Prudente/SP. Zootecnista, Me em Agronomia pela UNOESTE – Presidente Prudente/SP. Produção Vegetal.

Fonte: Milk Point