Carta aberta aos inimigos da agricultura

Hélio Casale *

O autor se diz estupefato diante da ignorância de jornalistas da grande mídia e dos ambientalistas contra o uso de defensivos.

A lavoura é um agrossistema, e não um ecossistema. Na lavoura, os invasores não encontram inimigos naturais, os predadores, e reproduzem-se de forma exponencial, não há como evitar o uso de defensivos para produzir alimentos, especialmente num país tropical.

Os veículos midiáticos, principalmente a televisão, que possuem alcance nacional, e até países vizinhos têm usado e abusado da arte de destratar nossa agricultura convencional, divulgando notícias inverídicas, sem se preocupar com as consequências de tais atitudes. Tais informações são multiplicadas com sabor de vitória por profissionais de pouco conhecimento e que não gostam da pesquisa científica. Difícil saber o quanto é ignorância, má fé ou mesmo burrice.

Programas dominicais tecnicamente muito bem produzidos são assistidos e comentados por milhões de brasileiros de todos os cantos de nosso país. Carta aberta aos inimigos da agricultura O autor se diz estupefato diante da ignorância de jornalistas da grande mídia e dos ambientalistas contra o uso de defensivos.

Na apresentação dos diversos temas, chama atenção a valorização dos produtos e produtores orgânicos ao mesmo tempo em que taxam os alimentos convencionais como carregados de venenos que fazem mal à saúde dos consumidores. Grandes e respeitados repórteres fazem tais afirmações sem se darem ao trabalho de confirmar cientificamente a realidade. Deveriam ter como missão principal levar ao conhecimento do público informação real, e não mensagens negativas. Precisamos de informação real, séria, e que reflita a realidade.

A palavra agrotóxico é empregada com grande frequência nesses programas. Etimologicamente, agrotóxico seria produto tóxico. Na realidade o que se emprega em nossa agricultura são defensivos agrícolas, para o controle de pragas e doenças e que, empregados na dose certa, na hora certa, não causam danos às plantas nem ao meio ambiente, sendo que apenas as estão protegendo.

Tais produtos são avaliados por técnicos do Ministério da Agricultura, Ministério da Saúde (Anvisa) e Ministério do Meio Ambiente (Ibama), em processos que duram em média 8 anos. São avaliadas características químicas, físicas, biológicas e os eventuais resíduos tóxicos para animais e humanos. Passam por um verdadeiro pente fino.

Chamar esses produtos de tóxicos para a agricultura é não reconhecer o trabalho dos técnicos envolvidos em cada processo de registro, não reconhecer o valor das indústrias que gastam milhões de dólares em pesquisas para lançar uma nova molécula. Assim, os detratores passam uma informação inverídica aos ouvintes. Informação falsa, na base da achologia.

Dados da FAO e do Banco Mundial mostram o “consumo de defensivos” por habitante, por ano, em diversos países deste nosso mundão, como se isso fosse possível. É um mero dado estatístico, sem pé nem cabeça, porque ninguém consome diretamente os agroquímicos. Usa-se o total de defensivos fabricados/utilizados/ importados, em quilos e litros, dividido pelo total da população, sem levar em consideração uma série de diferenças, a começar portipo de lavoura plantada. No Japão = 11,5 kg, Holanda – 4,5 kg, França = 2,4 kg, Alemanha = 1,9 e BRASIL = 1,16. Esse nosso número se deve por sermos um país tropical onde se pode fazer diferentes cultivos, num mesmo solo duas a duas e meia safras por ano, enquanto os nossos concorrentes fazem uma única safra/ano. Por aqui não temos neve, nem frio intenso, que iniba o desenvolvimento das plantas, mas o calor tropical faz com que nasçam muito mais insetos, ao contrário dos países temperados. Aqui, sem os defensivos, as perdas na produção podem ser de até 50% da safra se os insetos não forem combatidos.

Gostaria que os profissionais da mídia televisiva levassem sementes de soja transgênica e de soja orgânica para análise completa de macros, micronutrientes e resíduos de agroquímicos contidos em cada uma delas. Pode ser sementes de feijão ou carne bovina, leite, cenoura, chuchu. Tal apelo vale também aos ecologistas de plantão. De posse desses resultados, tomar a verdadeira posição sem qualquer paixão ideológica, sem achologismo. A análise laboratorial da ciência vai falar que alimentos orgânicos, ou convencionais e os transgênicos são absolutamente iguais.

O esterco de frangos ou de galinhas poedeiras quando aplicado como adubo num cultivo chamado de orgânico, será que as aves comeram apenas produtos orgânicos? Um franguinho caipira dá panela aos 6 meses e um de granja moderna chega na panela com pouco mais de 30 dias. A diferença é a ração balanceada, sem minhocas, sem sementinhas, sem insetos e outros. Mas o esterco chega na lavoura com bactérias e vírus, danosos aos seres humanos.

Vale lembrar que as plantas “bebem” os nutrientes essenciais somente na forma mineral, pois não existe nutriente orgânico. Se assim fosse, o que seria dos produtos produzidos com hidroponia onde a alimentação das plantas é feita somente com os nutrientes devidamente balanceados dissolvidos em água filtrada. Atrás dos resultados tem muita ciência que deve ser valorizada, e devidamente respeitada.

Essa história de orgânico é invencionice recente para valorizar o produto mais um pouco, sem levar em conta que a menor produção dos orgânicos poderá prejudicar milhões de pessoas mundo afora. Hoje, no Brasil, somos mais de 200 milhões de bocas. Na China, onde se praticava agricultura orgânica, no pós-guerra mundial, morreram cerca de 15 milhões de chineses por falta de comida, ou seja, de fome mesmo, já pensou? Já a China de hoje se beneficia da descoberta da síntese da amônia por Haber e, fertilizando seus campos, está fazendo comida mais abundante, rica e barata. Acabou a fome.

Por outro lado, mesmo “comendo” os chamados agrotóxicos, como dizem os ambientalistas, nossa expectativa de vida atual passa dos 72 anos no Brasil, praticamente semelhante à de países desenvolvidos. Em vez de condenar os defensivos, deveríamos dar graças por vivermos mais uns aninhos por aqui. Pelo jeito, comer veneno é bom…

Ficar achologicamente contra os defensivos, ou os fertilizantes minerais, é desconhecer a importância dos mesmos, é trabalhar contra a ciência, é trabalhar por dias piores, dias do “quanto pior, melhor”.

No fechamento desta edição da Agro DBO lemos nos jornais que o debate no Congresso Nacional para votar a nova lei dos defensivos, que regule de forma mais moderna a questão, evoluiu para um autêntico tiroteio da mídia e dos ambientalistas, para recusar o projeto de lei, esquecendo que hoje levamos 8 anos de tempo de vida para que as empresas façam o registro de um novo produto ou molécula, e que nos tragam novas tecnologias mais eficientes para o controle de pragas e doenças. É um tempo perdido, ficamos a cada dia mais atrasados em relação aos países que são nossos concorrentes e que podem usar essas tecnologias mais modernas, as quais eles liberam com no máximo 2 anos de análise pelos órgãos reguladores, especialmente na Europa e EUA, países mais exigentes do que nós em questões dessa natureza.

Cremos e esperamos que os profissionais das diferentes mídias devam se reposicionar, procurando enxergar a realidade, sem qualquer paixão ideológica, e nem achológica. Por isso, escrevemos esta carta aberta.

* O autor é engenheiro agrônomo desde 1961, cafeicultor e membro do Conselho Editorial da Agro DBO