O que acontece quando se é atingido por um raio

Agricultura - 23 de junho de 2018

Quem sobrevive a uma descarga elétrico muitas vezes tem que lidar com consequências duradouras e consideráveis. O fenômeno natural com a liberação de correntes de 200 a 300 mil amperes não deixa marcas apenas na memória.

Leva apenas alguns milésimos de segundos para se ser atingido por um raio. Depois disso, nada mais é como antes. Afinal, tal evento pode gerar temperaturas em torno de 50 mil graus Celsius, tão quente quanto a superfície do Sol.

Relâmpagos e trovoadas no céu: para muitos, um espetáculo fascinante; para outros, uma catástrofe e motivo de pânico, sobretudo entre vítimas de raios. “Essas pessoas geralmente sofrem de um distúrbio de estresse pós-traumático: ser atingido por uma descarga é algo que elas não esperavam de maneira alguma, e que as tira totalmente de controle”, explica o professor Berthold Schalke, do Hospital Universitário Neurológico de Regensburg, que há muitos anos lida com vítimas de raios.

Queimaduras e cicatrizes

Pode acontecer que a corrente elétrica corre pela superfície do corpo e siga adiante, tudo numa fração de segundos. Isso pode resultar em queimaduras séries. “Há pacientes que, ao serem atingidos, traziam uma corrente de ouro em volta do pescoço. Ela simplesmente evaporou. Dá para ver as cicatrizes de queimadura resultantes”, diz Schalke.

Na maioria das vezes, trata-se de queimaduras de segundo grau comparáveis a uma escaldadura por vapor de água. Até chaves nos bolsos podem ser perigosas: elas absorvem o raio e literalmente se fundem na pele.

“Depende de vários fatores, se a corrente flui principalmente na superfície da pele ou se penetra na própria pessoa”, explica Thomas Raphael, da Federação Alemã de Indústrias Eletrotécnicas, Eletrônicas e de Tecnologia da Informação (VDE).

Quando o coração não aguenta

Mas a corrente também pode fluir para o corpo através da cabeça: ela procura uma via de entrada pela orelha, narinas, boca ou órbitas oculares, e daí penetra na medula espinhal.

Algumas vítimas simplesmente tombam ou apresentam problemas cardíacos. “Podem ocorrer distúrbios do ritmo cardíaco, mas nesses tais casos geralmente o coração já estava danificado antes”, explica Schalke.

Outras vezes, porém, o coração simplesmente para, como alguém tivesse pressionado brevemente o botão da pausa. Aí é preciso reanimar a vitima logo. Se não há ninguém para avaliar a situação corretamente, a vítima de eletrocussão em geral morre. O neurologista está convencido de que muitos poderiam ser salvos se recebessem assistência com a devida rapidez.

Músculos descontrolados

Muitas funções corporais funcionam por meio de eletricidade, como os músculos ou os nervos cerebrais. Uma forte descarga atrapalha esse sistema. Se os músculos são afetados, ficam flácidos e não podem mais ser controlados. A vítima tomba ao chão, fica caída e não consegue se mexer, paralisada. “É como um ataque de paraplegia”, descreve Schalke, mas ele passa.

Algumas vítimas de raios relatam terem sido catapultadas e voarem vários metros pelo ar a outro local: “Eu ia por um caminho e, de repente, depois do raio, estava a uns metros de distância, na grama.”

“Também há relatos de mortes nas montanhas, onde os atingidos foram catapultados abismo abaixo após um raio”. Segundo o neurologista Schalke, trata-se de uma contração muscular involuntária, que a pessoa não tem como influenciar.

“O que foi isso?”

O especialista em proteção contra raios Raphael acrescenta que “ser atingido por um raio é uma experiência que muitos provavelmente nem registram conscientemente”. É tudo, literalmente, rápido como um relâmpago.

Após milésimos de segundos, tudo acabou, mas não para o eletrocutado, inconscientemente ele pode entrar em estado de choque. “O que todas as vítimas de raios têm em comum é o medo de estrondos e barulhos altos”, diz Schalke. Durante tempestades, costumam se retirar para os cantos mais distantes da casa.

Entre 30 e 50 pessoas são atingidas por raios todos os anos, e aproximadamente 10% não sobrevive ao evento traumático.

Passado que não passa

Nervos e músculos são os mais prejudicados por uma descarga: com uma alta percentagem de líquido, eles opõem bem pouca resistência. O cérebro pode sofrer danos cerebrais que só vão aparecer muito mais tarde. “Os nervos finíssimos responsáveis pela percepção de temperatura ou de dor são frequentemente destruídos”, explica Berthold Schalke.

“Tais pacientes então não sentem mais que a água da banheira está fervendo, e precisam medi-la com um termômetro para não se queimarem. Esses nervos não têm um revestimento isolante, são apenas fios superdelgados. Durante os exames a maioria dos médicos mede apenas os nervos espessos e muitas vezes não percebe que se trata de uma chamada ‘neuropatia das pequenas fibras’, ou seja, que os canais nervosos menores estão danificados.”

Lesões na cabeça podem evoluir para transtornos de personalidade, com comprometimento da capacidade de concentração e de trabalho. Do ponto de vista neuropsicológico, quem sobrevive a um raio pode não ter mais o mesmo rendimento de antes.

O sobrevivente sofre lacunas de memória e tem dificuldade de fazer associações. “Certa vez tivemos uma paciente que dizia ter tido uma memória excelente. Ela conseguia se lembrar de tudo. Nunca precisava de um bloco de notas. Depois do evento, precisava ter sempre alguém do lado para lhe passar um papel onde estava escrito o que ela tinha que fazer “, conta o neurologista Schalke. “Ou o jovem formando, que após ser atingido por um raio e apesar da intensa reabilitação neurológica, não conseguiu completar seu treinamento profissional.”

Falsas sabedorias

O raio não precisa necessariamente atingir em cheio para causar danos físicos. Uma espécie de “cambalhota elétrica” acontece até com mais frequência. Nesses casos, ele atinge um objeto próximo, que, em vez de encaminhar a corrente para o solo, a faz saltar para uma pessoa próxima, e só então a carga passa através dela para o chão. Isso é muito comum perto de árvores.

“Evite carvalhos, procure faias e encontre tílias”. Essa velha sabedoria popular alemã só provoca um olhar de censura os cientistas, inclusive Schalke: “Todos esses mitos existentes são besteira. ‘Se você plantar um sabugueiro, o raio não cai’. ‘Quando os sinos da igreja tocam, não acontece nada’. Esqueça tudo isso”.

Portanto: árvore é árvore.

O que fazer durante tempestades?

Há diversas maneiras de se proteger de raios. A primeira regra, segundo Thomas Raphael, da VDE, é levar a tempestade a sério e não ficar do lado de fora: interromper todas as atividades ao ar livre, procurando abrigo numa casa, de preferência um prédio com sistema de proteção contra raios. Outra opção seria uma construção sem para-raios, mas se possível de pedra.

Um carro também oferece abrigo seguro durante tempestades por se tratar de uma gaiola de Faraday. “É uma cápsula de lata selada, que serve como condutor e assim também como blindagem elétrica”, explica o especialista em proteção contra raios.

Um lugar perigoso é o chamado potencial de passo. “Um relâmpago quer, logicamente, ir para o chão. Mas ele não desaparece lá de uma só vez. Ele se espalha por uma grande área em profundidade e em largura”, explica Raphael. “Se estou perto do ponto de impacto e dou um passo adiante, percebo então entre as minhas pernas que parte dessa corrente de raio flui sobre mim. Essa tensão é perigosa. O melhor é se encolher, agachando-se e puxando as pernas para perto do corpo.”

Estimar distâncias

“E por fim, se eu vir um raio, devo começar a contar até o soar do trovão. Divido então esse número por três, e assim terei aproximadamente a distância do impacto em quilômetros”, explica Raphael.

Assim, se a contagem é de 30 segundos, a distância é de dez quilômetros. Se forem menos de dez segundos entre raios e trovões, há risco de vida, alerta o VDE. E mesmo que seja um pouco mais, não se deve se descuidar. “Quando o último raio ou trovão passar, espere mais 30 minutos antes de sair”, aconselha Raphael. É um tempo que vale a pena esperar.

Conhecimentos escassos e comentários bobos

Os danos causados por raios em humanos ainda carecem de pesquisas, já que tais fenômenos ocorrem muito raramente. Sendo assim, fica difícil encontrar participantes suficientes para um estudo. “Temos cerca de cinco mortes por ano aqui na Alemanha”, diz Raphael. “Temos cerca de 100 pessoas atingidas por um raio que foram para o hospital, e outras 100 que nem precisaram consultar um médico.”

Há apenas alguns especialistas que pesquisam como um raio pode afetar os seres humanos. A maioria dos médicos sabe pouco ou nada sobre o fenômeno. Segundo Raphael, “o paciente pode até reclamar que algo está errado com ele, mas ninguém parece ser capaz de dizer qual é o problema exatamente”.

“De conhecidos, colegas e amigos, às vezes também vêm comentários simplesmente estúpidos”, comenta Schalke. São frases como: “Um raio caiu em você? Era melhor ter jogado na loteria, ia ser um milionário agora, isso é tão raro quanto ser atingido por um raio.” Mesmo que a intenção não seja maldosa, a maioria das vítimas de raios dificilmente consegue achar graça.

Fonte: Redação/Climatempo

Crédito Imagem: Domínio Público/Pixabay

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