Como vai o fogo pelo mundo e na Amazônia?

3 de agosto de 2020

Julho passou… E o que revelam os satélites da NASA sobre as queimadas na América do Sul, na Amazônia e no mundo?

América do Sul

Houve um significativo aumento de 44% nas queimadas da América do Sul, com relação ao mesmo período em 2019, nos primeiros sete meses de 2020. Foram 149.044 focos de fogo, o maior valor dos últimos sete anos. Esse crescimento, por razões climáticas, foi maior na Argentina (286%), Uruguai (177%) e Paraguai (129%). No Brasil, as queimadas cresceram apenas 4%.

A comparação correta entre países deve considerar a densidade de queimadas, pois a quantidade está relacionada às suas extensões territoriais. Neste período, os campeões de queimadas por 1.000 km2 foram Venezuela (38), Paraguai (36), Colômbia (17) e Argentina (10). O Brasil vem atrás da Bolívia com 5 queimadas/1.000 km2. E se o bioma Amazônia fosse um país empataria com o Uruguai com cerca de 3 queimadas/1.000 km2.

Amazônia brasileira

De 1 de janeiro até 31 de julho de 2020, foram registrados 14.707 pontos de calor no bioma Amazônia contra 15.924 no mesmo período, em 2019. Uma redução de 7% nas queimadas este ano.

Nos últimos 20 anos, os meses de agosto a outubro concentraram 69% das queimadas anuais. Eles definirão a comparação com anos anteriores. O recorde foi em 2004 com 218.637 queimadas. Nos últimos 10 anos, elas caíram e variam num patamar abaixo das 100.000 queimadas anuais no bioma Amazônia, metade da década anterior.

Segundo a Embrapa Territorial, em 2019, não houve queimadas em 95% dos imóveis rurais registrados no Cadastro Ambiental Rural na Amazônia. Na comparação com os dados de desmatamento do Projeto Prodes do INPE, mais de 90% das queimadas de 2019 foram em áreas agrícolas desmatadas de longa data. Essa pequena fração de produtores rurais (5%), em sua maioria os mais pobres, precisa de apoio técnico e financeiro para substituir o uso do fogo na agricultura por novas tecnologias. Esse é o caminho.

Mundo

O monitoramento mundial das queimadas mostra sua grande concentração em regiões tropicais, como na imagem gerada pela NASA (LANCE-FIRMS) em 31 de julho de 2020. Elas resultam de práticas agrícolas primitivas, passíveis de serem substituídas por tecnologias modernas.

Ainda neste julho, o presidente da França tuitou: “Nossa casa segue queimando”. Que casa? Estaria ele falando do recente incêndio criminoso na catedral de Nantes? Ou em Notre Dame de Paris? Ou nas mais de 20 igrejas incendiadas na França desde 2018, como Saint Sulpice em Paris; Sainte Brigide em Plappeville e Saint Jacques de Grenoble, está inteiramente destruída? Não. Por “casa”, ele evocava a Amazônia!

Hoje, mais de 75% dos fogos ativos do planeta estão na África, sobretudo em antigas colônias francófonas, como mostram os dados da NASA. Sobre isso, ele não tem nada a dizer? Nem a fazer? C´est la chienlit.

Evaristo de Miranda, doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa