“Chipagem” de peixes inaugura nova fase na piscicultura paraense

Sob os olhares atentos de piscicultores e técnicos da região, os pesquisadores Alexandra Bentes e Heitor Martins, da Embrapa Amazônia Oriental (Belém/PA) “chiparam” 30 peixes e coletaram amostras de tecido para análise genética dos animais. “A ação é pioneira para a espécie e concretiza o primeiro passo da pesquisa no Pará rumo ao melhoramento genético de peixes”, afirma Alexandra Bentes.
A marcação eletrônica consiste na introdução de um “chip” na nadadeira dorsal do animal, com uma numeração, que passa a ser a identificação do indivíduo. É como se fosse o RG do peixe, fundamental para o produtor conhecer cada animal do seu plantel, acompanhar seu crescimento e conduzir sua reprodução.
O trabalho, liderado pela Embrapa Pesca e Aquicultura (Palmas/TO), vem sendo desenvolvido para espécies amazônicas, como o pirarucu e o tambaqui, assim como para híbridos obtidos a partir do cruzamento de tambaqui, pirapitinga e pacu. A pesquisadora Alexandra Bentes explica que com a “chipagem” de peixes possibilita quatro importantes etapas para uma piscicultura comercial: o controle zootécnico, de reprodução, o manejo genético e, em última instância, a rastreabilidade do produto.
A partir do controle zootécnico, o produtor pode acompanha mensalmente o tamanho, o peso e o número de indivíduos no seu plantel. Além disso, ele identifica facilmente os machos e fêmeas e dessa forma pode conduzir melhor a produção de alevinos. “Mas é o manejo genético a grande vantagem da tecnologia, que envolve a colocação do chip e a coleta de material para análise genética do animal”, conta Alexandra Bentes.
Com a tecnologia, é possível observar o nível de homozigozidade do plantel, ou seja, o grau de parentesco entre os indivíduos. “A consanguinidade numa piscicultura de reprodução é muito ruim, ela compromete a qualidade do plantel, diminui o número e o tamanho dos indivíduos, e aumenta a ocorrência de peixes defeituosos. É como na espécie humana”, explica a pesquisadora.
Produção
A expectativa do piscicultor Valdir Colognese Gama, do município de Igarapé-Açu, é ter sua produção certificada e poder dizer para cada um dos seus dois mil clientes no Pará de onde vem e quem são os pais dos alevinos que comercializa. “Com esse trabalho, queremos ganhar na parte genética do nosso plantel. Isso é bom pra nós e para a pesquisa”, afirma o produtor.
Com foco na produção de matrizes reprodutoras de oito espécies peixes, especialmente os híbridos tambacu (cruzamento de tambaqui com pacu) e tambatinga (tambaqui com pirapitinga), Valdir Gama se diz um dos únicos produtores de matrizes reprodutoras da região. A atividade envolve a esposa e os três filhos. “Nós começamos do nada, cavando tanque à mão e hoje em uma área de 1,47 ha, temos 33 tanques, 1.200 animais e nossa ideia é chipar todos eles”, conta o piscicultor.
Para ter uma ideia da produção da família Gama, Valdir diz que de janeiro a junho produz de oito a dez milhões de alevinos, e de julho a dezembro produz de um a dois milhões. “A gente supre a demanda dos estados do Pará e do Tocantins, além do Suriname”, afirma.
Desafios
Um dos clientes da família Gama é o piscicultor Maelno Anunciação, que iniciou na atividade há um ano com a criação de pirarucu e tambaqui, nos municípios de Pirabas e Primavera, nordeste paraense. Ainda curioso sobre a novidade, Maelno reconhece que com tecnologia pode garantir uma boa produção, “porém é preciso apoio do poder público no sentido de promover a legalização dos produtores e o fomento à atividade”, diz.
“Há dificuldade para obter licenciamento, o que leva muitas vezes o piscicultor a ficar na clandestinidade, por isso as estatísticas da pesca no Pará não representam o tamanho e a importância que a atividade têm no nosso estado”, desabafa Valdir Gama.
O superintendente adjunto do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), Luís Sérgio Borges, acompanhou a ação da pesquisa na área do produtor. Para ele, o papel do poder público é viabilizar experiências como essas que desenvolvem a atividade da piscicultura no estado do Pará. “É no campo e na pesquisa que vamos encontrar as soluções para a produção no estado”, finaliza.
Serviço
A Embrapa Pesca e Aquicultura oferece aos piscicultores brasileiros o serviço de análise genética de peixes, realizado por meio de duas práticas: a marcação dos peixes por “chip” e a coleta de material biológico. O produtor interessado deve entrar em contato com a Unidade pelos telefones (63) 3229-7800, (63) 3229-7800, (63) 3229-7850 ou (63) 3229-7850 para solicitar o kit de análise genética e receber as instruções.
Fonte: Embrapa Amazônia Oriental