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Lote fechado hoje: é considerado engorda na seca ou nas águas? Quais estratégias adotar?

 por Ismael Pereira*

Historicamente, o confinamento surgiu no período da seca, com o objetivo de não deixar que os animais pesados perdessem peso e para obter animais prontos para abate em um período de menor disponibilidade de alimento e, consequentemente, maior procura pelos frigoríficos. Tal cenário gerava maior preço de @, fato que viabilizava a operação. Outro aspecto importante do confinamento no período da seca é que essa época acaba sendo favorável para os confinamentos, pois reduz a presença de lama devido à chuva e reduz o risco de desperdício do alimento fornecido no cocho.

Atualmente, o sistema de confinamento de bovinos de corte vem sendo utilizado por pecuaristas durante o ano todo e não somente na entressafra, como era de costume antigamente. Devido aos altos custos de estrutura, mão de obra e manutenção, chamados de “custo operacional”, os pecuaristas têm buscado realizar a terminação de animais também no período das águas, com o objetivo de diluir todos esses custos operacionais e ter um fluxo de caixa constante dentro da operação. Além disso, há redução na pressão de compra do boi magro, há maior disponibilidade de alguns insumos com boa oferta no período, e todos esses fatores permitem que se atenda a mercados exigentes, que necessitam de uma carne de qualidade durante todo o ano.

O confinamento no período das águas vem crescendo, devido a evolução de resultados, informações, tecnologias e estratégias de ajustes de manejo e nutrição, para favorecer a rentabilidade positiva da atividade durante todo ano. Desta forma, para que o resultado do confinamento no período das águas seja viável, é importante seguir alguns princípios e estratégias para não haver surpresas no momento da venda dos animais.

A grande dúvida é: quando se deve iniciar o confinamento, com as estratégias indicadas para o período? Agosto, setembro, outubro, novembro ou dezembro?

Normalmente, os confinadores que optam por confinar animais nas águas trabalham durante todo o ano e não encerram um ciclo para se iniciar o outro. A reposição é realizada conforme os lotes são retirados para o abate, fato que muitas vezes faz com que o pecuarista acabe esquecendo de adotar estratégias de manejo recomendadas para o período.

Para avaliar melhor o cenário descrito, segue um quadro que ilustra a entrada no confinamento após o giro da seca, nos meses de agosto a outubro, acompanhado da média de precipitação mensal para algumas regiões do Brasil.

Para dias de permanência em confinamento, consideraram-se os dados do Benchmarking de confinamento da Cargill de 2020 que observou um período médio de cocho de 113 dias, na média Brasil do mesmo ano.

É possível observar na figura 2 a precipitação média total que os animais recebem durante todo período de confinamento. Considerou-se a média de chuvas das quatro regiões, calculada de acordo com número médio de dias de confinamento de 113 dias, com os animais sempre entrando no início do mês.

De acordo com as informações apresentadas, é possível observar que os lotes alojados entre agosto e setembro normalmente recebem menor índice de chuvas no período inicial de confinamento, porém ao final de setembro e início de outubro as chuvas se intensificam e podem encontrar o produtor despreparado para tal situação. Por consequência, pode haver prejuízos no desempenho dos animais, com menor retorno sobre os investimentos.

Entre os fatores que podem prejudicar os resultados nesse período, podemos citar uma série de problemas, como dificuldade de fabricação e distribuição de dietas; maior oscilação no teor de matéria seca, principalmente para insumos armazenados em local descoberto; perda de alimento no cocho, seja por fermentação ou lixiviação; além do maior problema que seria a presença de lama, fato que pode aumentar a exigência de mantença em até 10% quando há uma camada de apenas 5 cm de lama.

Em estudo realizado na Universidade do Nebraska, nos Estados Unidos, Mader (2010) observou que 5 cm de lama reduziu o GPD em 6,3% aumentou em 6,9% a conversão alimentar; a presença de 17 cm de lama causou redução de 33,9% do GPD e aumentou em 34,3% a conversão alimentar, cenário este que pode ser evitado com redução na lotação assim, como já observado em dados internos da Cargill. O Benchmarking Confinamento 2020, corrobora tais informações, já que demonstrou uma redução de apenas 2,65% no GPD e aumento de apenas 2,7% na eficiência biológica para 260.528 mil e 267.083 mil machos confinados nas águas e nas secas, respectivamente, fato que pode ser justificado pelas diferentes lotações médias de 19,9 e 13,41 m² por boi, respectivamente, nas águas e seca.

Frequência de área por animal em cada época do ano, em m² por boi (Benchmarking Confinamento Cargill 2020

Nesse sentido, é importante iniciar a redução de lotação para os lotes que entram mesmo no período de menor ocorrência de chuva, com objetivo de reduzir os prejuízos da época do ano. É indicada área de 20 a 25 m² por cabeça, para obter menor impacto zootécnico para os animais, além de outras ações, como a limpeza dos currais ao final da seca, época na qual é mais fácil utilizar maquinário nos currais, antes de iniciar as chuvas, reduzindo a quantidade de matéria orgânica que irá gerar maior quantidade de lama, além de dificultar o escoamento da água e secagem do curral após as chuvas.

A inclinação dos currais utilizados no período chuvoso deve permitir o escoamento da água, sendo recomendados os valores de 3 a 5% de inclinação. Outra prática utilizada é a construção de “murundus”, que consistem em montes de terra ao meio do curral, que possibilitam que os animais tenham acesso a área mais seca e também onde podem se deitar e ruminar com maior conforto. Essa área deve ser calculada considerando de 1,8 a 2,3 m² por animal.

Outras práticas que os confinamentos que pretendem trabalhar nas águas devem adotar são a construção de um calçamento na beirada do cocho, com no mínimo 2,5 m a partir da linha do cocho, ou uma boa compactação do solo nesse local. A mesma recomendação se faz para as beiradas dos bebedouros, além de adicionar um cano para escoamento e limpeza dos bebedouros, o que evita o acúmulo de água da limpeza, além da água da chuva nos currais.

Em relação à nutrição, é importante criar uma rotina mais intensa de aferição de matéria seca, principalmente quando se utiliza volumoso fresco ou volumoso armazenado no tempo, como muitas vezes é o caso do bagaço de cana. Outro ponto importante é o manejo de cocho, que deve ser realizado com o objetivo de se reduzir ao máximo as sobras. É interessante contar com uma equipe para realizar a limpeza dos cochos, sempre que necessário. Caso o alimento fornecido fique muito úmido e seja necessário o descarte, podem ser realizados ajustes nutricionais nas dietas fornecidas. Outra estratégia interessante é o aumento na frequência de tratos, com objetivo de fornecer menor quantidade por trato, em maior número de vezes no dia, o que evita a grande perda de alimento caso ocorra chuva durante o dia.

O confinamento nas águas ou na transição seca-águas é uma ótima estratégia para que o pecuarista consiga aumentar o capital de giro e o poder de compra para todo o ano, além de diluir os custos operacionais que seriam concentrados apenas em um período do ano.

Porém, é importante avaliar o mês de entrada dos animais e o histórico de chuvas da região de cada confinamento, para estabelecer todas as estratégias necessárias para que se obtenha melhor resultado e retorno sobre o investimento.

É possível concluir que, nas maiorias das regiões, um lote fechado hoje está mais próximo de um cenário das estratégias de águas do que de secas! É uma questão de ver e agir!

Ismael Pereira Consultor Técnico Regional da Cargill Nutrição Animal*

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