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O que ganhamos com a não utilização do óxido de zinco terapêutico na suinocultura

*Por Ricardo Hummes Rauber

O trocadilho no título do artigo é proposital. A intenção é trazer, de forma imediata, uma reflexão sobre os motivos para a utilização da estratégia terapêutica com óxido de zinco (ZnO) e os impactos da sua possível retirada. Não é uma pergunta a ser respondida. Mas, sim, um convite a entendermos por que a retirada do ZnO (e dos antibióticos promotores de crescimento) é uma oportunidade de aprimoramento do sistema produtivo.

Como pano de fundo, temos a infindável discussão sobre resistência antimicrobiana e o papel da produção animal intensiva neste cenário. Apesar de não haver claras evidências científicas da participação do uso de antibióticos pela cadeia de produção animal na ocorrência de bactérias resistentes ou multirresistentes em ambientes hospitalares, ao avaliarmos o documento “WHO Guidelines on Use of Medically Important Antimicrobials in Food-Producing Animals” da Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) publicado em 2017, observamos um conjunto de quatro recomendações e boas-práticas para o uso de antimicrobianos na produção animal:

  1. Redução no volume total de antibióticos utilizados;
  2. Não utilização de antibióticos como promotores de crescimento;
  3. Não utilização de antibióticos de forma preventiva (na ausência de enfermidade);
  4. Reservar, como última alternativa, o uso de antibióticos criticamente importantes para medicina humana para controle de enfermidades e de antibióticos de altíssima prioridade criticamente importantes para medicina humana para o tratamento de enfermidades.

A própria OMS, no mesmo documento, reconhece que as evidências disponíveis para embasar as recomendações são de baixa (recomendações 1 a 3) e muito baixa (recomendação 4) qualidade. No entanto, ao falarmos da utilização de antibióticos com doses abaixo da concentração inibitória mínima e por períodos prolongados, como é o caso dos promotores de crescimento, faz sentido considerarmos, pelo menos, a aplicação da recomendação 2.

Frequentemente presente na produção intensiva de suínos, a Diarreia Pós-desmame é um distúrbio que ocorre em leitões, alguns dias após o desmame. Esta é uma fase especialmente crítica para o animal, que passa por algumas transições que impactam em alterações na dinâmica gastrointestinal e fisiológica como, por exemplo, a troca de uma dieta líquida, altamente digestível e rica em substâncias protetoras, o leite materno, para uma dieta sólida, com compostos não-digestíveis em sua integralidade e sem a proteção de anticorpos e citocinas presentes no leite materno. Além disso, situações de estresse estão presentes nesta fase, como a adaptação dos animais às novas instalações, definição da hierarquia social no lote, mistura com animais de outras origens, procedimentos de vacinação, entre outros. Estas alterações desencadeiam mudanças no trato gastrointestinal (TGI) que favorecem a adesão, colonização e multiplicação de bactérias patogênicas no intestino, em especial, E. coli.

O ZnO tem sido utilizado amplamente e com sucesso nas últimas décadas como forma de tratamento das condições entéricas no pós-desmame. A terapia consiste na utilização de doses em torno de 2.500 ppm de Zn nas dietas dos leitões, ao passo que a dose para suprir o requerimento nutricional da fase não é superior a 150 ppm. No entanto dois pontos surgem com importância nas discussões em torno de uma possível restrição no uso do ZnO terapêutico:

  1. O impacto ambiental dos níveis excedentes de zinco na dieta, uma vez que o mineral não é absorvido no intestino e, desta forma, é eliminado através das fezes representando, assim, um potencial grande de contaminação do solo e outros recursos naturais.
  2. Relatos de desenvolvimento de resistência a determinados antimicrobianos em populações de bactérias em animais submetidos a este tipo de utilização do mineral.

Após uma análise de risco-benefício, avaliando os pontos elencados acima, em junho de 2017, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) decidiu pela retirada das autorizações para a comercialização de produtos veterinários de uso oral com ZnO na sua composição, em um prazo máximo de 5 anos. A decisão tem validade para os estados membro da União Europeia. No entanto, o fato de a restrição estar baseada em dois pontos relevantes sob o aspecto de sustentabilidade da cadeia (resistência antimicrobiana e meio ambiente), gera a necessidade de discussão do tema, com foco especial às alternativas a serem implantadas em uma eventual restrição ao uso terapêutico do ZnO no Brasil, seja por regulamentos internos, seja para atendimento de algum mercado importador.

No que tange ao sistema produtivo em si, algumas ações são fundamentais para alcançar o sucesso na retirada de uso terapêutico do ZnO e estão centradas em um programa robusto de Biosseguridade que contempla procedimentos de isolamento, controle de tráfego, higienização, quarentena, medicação, vacinação, monitoramento, erradicação, auditorias, educação e plano de contingência.

Com foco especial à suinocultura, vale reforçar as seguintes ações em um programa de biosseguridade:

  1. Estruturação da cadeia produtiva para redução no número de origens e alojamentos considerando pirâmides sanitárias e clusterização.
  2. Definição de um programa de vacinação adequado à realidade da granja ou região, incluindo escolha dos agentes e cepas, tipo de vacina, via de aplicação, número de doses e os cuidados essenciais no transporte, conservação e aplicação das vacinas.
  3. Qualidade da água fornecida aos animais. Observar tanto a qualidade microbiológica quanto físico-química da água. Em linhas gerais, a qualidade microbiológica da água é garantida através da cloração compulsória, com níveis em torno de 3 ppm de cloro livre no ponto de consumo de água mais distante do ponto de cloração. Já no que diz respeito à qualidade físico-química, tanto a dureza quanto o pH da água devem ser observados e, sempre que possível, corrigidos. Lembrando que águas com pH levemente ácido (entre 5,0 e 6,5) são ideais, do ponto de vista de saúde animal, pois favorecem a apresentação do cloro na forma de ácido hipocloroso que é a forma ativa contra microrganismos.
  4. O processo de limpeza e desinfecção das instalações e equipamentos deve ser cuidadosamente conduzido, realizando a retirada de toda a matéria orgânica das instalações, incluindo canaletas e caixas de dejetos. Deve ser utilizado um detergente efetivo para o processo de limpeza e, ao final, com as instalações e equipamentos secos, deve ser aplicado um desinfetante, escolhido de acordo com a situação sanitária da granja.
  5. Para que o processo de limpeza e desinfecção seja plenamente realizado, outro ponto a ser observado e planejado é o alojamento no sistema todos-dentro-todos-fora, permitindo o completo esvaziamento da instalação.

Como comentado anteriormente, os principais fatores de risco para a ocorrência de diarreia pós-desmame são causa, direta ou indireta, de um desequilíbrio na microbiota intestinal, levando a uma predominância de bactérias potencialmente patogênicas e desencadeando o quadro clínico característico. Tendo este contexto em mente, é preciso estabelecer estratégias no sentido de promover um equilíbrio maior na microbiota intestinal e uma sobreposição de microrganismos potencialmente benéficos sobre aqueles patogênicos.

Uma ação a ser implementada é evitar o uso profilático de antibióticos nos leitões, tanto pré, quanto pós-desmame. É preciso lembrar que mesmo as bactérias com perfil benéfico ao hospedeiro são susceptíveis à maioria dos antibióticos utilizados. A utilização de um antibiótico de forma preventiva pode ser um dos desencadeadores de um desequilíbrio mais importante na microbiota intestinal.

O uso de produtos com potencial de modulação da microbiota e/ou controle de bactérias patogênicas no TGI, tanto via ração, quanto via água de bebida, também é uma estratégia que pode ser aplicada com o intuito de substituição do uso terapêutico do ZnO. Podemos agrupar os principais produtos com esta finalidade ou perfil de ação da seguinte forma:

  • Probióticos: são culturas únicas ou mistas de microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício de saúde ao hospedeiro. Em geral, os probióticos atuam através da 1) modulação ou balanço da microbiota entérica, 2) manutenção da homeostase epitelial e/ou 3) modulação das repostas imunes no intestino.
  • Prebióticos: usualmente definidos como componentes não viáveis da dieta que conferem benefícios de saúde ao hospedeiro, associado com a modulação da microbiota. Atuam 1) diretamente na microbiota entérica e/ou 2) na parede intestinal, regulando sua homeostase.
  • Simbióticos: são produtos elaborados a partir da associação entre probióticos e prebióticos de forma que ambos atuem de forma sinérgica.
  • Fitogênicos ou extratos de plantas: são compostos bioativos, derivados de plantas, que podem ser naturais ou sintéticos. Fazem parte deste grupo um grande contingente de compostos que podem ter modos de ação distintos entre si. De forma geral, eles atuam 1) diretamente em microrganismos patogênicos por suas propriedades antimicrobianas e/ou estimulando microrganismos benéficos, 2) através de suas propriedades antioxidantes e antinflamatórias, 3) por suas propriedades digestivas e/ou 4) atuando na homeostase da parede intestinal.
  • Ácidos Orgânicos: quimicamente, podem ser descritos como ácidos monocarboxílicos simples ou ácidos carboxílicos ligados a um grupo hidroxila. Além de estarem distribuídos largamente na natureza, são produzidos na luz intestinal dos animais através da fermentação de carboidratos pela microbiota. Tem sua ação predominantemente por 1) ação direta antibacteriana e/ou 2) de manutenção da homeostase epitelial.
  • Enzimas: são proteínas biologicamente ativas que facilitam a quebra química de nutrientes em compostos menores, de mais fácil digestão e absorção. Normalmente tratadas e discutidas sob o prisma da nutrição animal, pois melhoram a digestibilidade e disponibilidade dos nutrientes para o hospedeiro, tem sua ação como modulador da microbiota, de forma indireta, baseada na redução da disponibilidade de nutrientes para a utilização pelos microrganismos da luz intestinal.

Não é possível estabelecer um programa padrão e universal com esta finalidade. É necessário avaliar os desafios de cada granja ou grupo de granjas na mesma região ou integração a fim de estabelecer um programa personalizado. No entanto, é possível afirmar que, para um efetivo controle da diarreia pós-desmame em um cenário sem a utilização de ZnO terapêutico, é necessária a elaboração de um programa que englobe compostos representantes de dois ou mais grupos citados acima, além das ações já mencionadas de biosseguridade e não uso de antibióticos preventivos.

Fica evidente que, apesar de não estarmos sujeitos imediatamente à retirada do ZnO terapêutico da produção de suínos no Brasil, temos uma oportunidade interessante de aprimorarmos ainda mais o sistema produtivo brasileiro sob o ponto de vista de biosseguridade e prevenção da ocorrência de diarreias pós-desmame e outras enfermidades entéricas, atuando nas causas primárias destes problemas.

*Ricardo Hummes Rauber, doutor em ciências veterinárias pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, consultor em saúde animal da Vetinova e parceiro da ICC.

Fonte: Mariana Tabatiano- Texto Comunicação Corporativa

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