Efeito de derivados do Nim sobre os insetos

Categoria Geral - 23 de setembro de 2016

A árvore de Nim (Azadirachta indica A. Juss.) é uma das fontes mais ricas e diversas de metabólitos secundários em Angiospermas. Dentro de um amplo universo de compostos químicos encontrados no Nim, os limonoides são os mais importantes, destacando-se a azadiractina como o principal composto com atividade biológica sobre insetos. A aplicação dos derivados de Nim tem sido muito estudada no manejo integrado de pragas (MIP) e eles têm se revelado tão potentes quanto os inseticidas sintéticos.

Esses derivados são empregados na forma de extratos, uma vez que a síntese dos limonoides para o MIP é inviável economicamente em função da complexidade dessas moléculas. Além disso, a utilização de compostos puros aumenta a probabilidade da seleção de insetos resistentes. Os derivados do Nim, portanto, podem ser empregados com múltiplas finalidades, atuando como regulador de crescimento, esterilizante e inibindo a seleção hospedeira dos insetos.

Quando falamos dos efeitos desses derivados sobre ovos de insetos, é importante ressaltar que eles ainda não são consistentes, variando conforme a espécie de inseto. Existem situações em que não há mortalidade, mas o período embrionário é prolongado. Em outros casos, além desse prolongamento, há também redução da viabilidade dos ovos. É possível que esses efeitos variáveis se devam à barreira protetora exercida pelo córion do ovo, impedindo a penetração dos limonoides. Afinal, a espessura do córion é uma característica que influencia a suscetibilidade.

Mais adiante, na fase de larva, os derivados do Nim ocasionam efeitos mais drásticos, regulando a alimentação e o crescimento, podendo culminar com a morte. Tais efeitos são resultantes da interferência sobre os hormônios da ecdise e hormônio juvenil e, consequentemente, sobre o processo de ecdise (troca do exoesqueleto ou tegumento do inseto).

Na fase larval, podem ocorrem várias ecdises em um curto período de tempo, sendo que a regulação hormonal no corpo do inseto é um fator chave para suscetibilidade aos derivados de Nim. As larvas que sobrevivem confinadas na estrutura da planta possuem menor opção de escolha na presença dos compostos e apresentam maior taxa de exposição quando comparado a espécies que possuem grande capacidade de deslocamento na fase imatura.

Durante a seleção hospedeira para alimentação, os limonoides podem alterar o comportamento dos insetos, impedindo o início da alimentação, seja por irritação (repelência e efeito estimulante locomotor) ou supressante. Após o início da alimentação, a azadiractina estimula um receptor gustatório deterrente regulado por sensilas nas peças bucais (inibição primária).

Ainda pode atuar em nível de impulsos elétricos no sistema nervoso, impedindo o inseto de adquirir informação gustativa adequada para poder selecionar seu alimento (inibição secundária). E finalmente, também pode reduzir o alimento ingerido devido aos efeitos citotóxicos.

Após o desenvolvimento, as larvas podem abandonar a planta e se deslocar para o solo para a pupação. Espera-se algum efeito nessa fase, uma vez que em várias espécies o processo de pupação é induzido pelos hormônios da ecdise. Para as moscas-das-frutas, por exemplo, não foi constatado efeito na pupação, e sim na emergência de adultos quando as larvas em trânsito ou pupas são expostas ao contato com derivados de Nim.

Chegando à fase adulta dos insetos, os que sobrevivem ao tratamento com derivados de Nim geralmente apresentam baixo vigor e distúrbios comportamentais, como menor capacidade de se alimentar, se locomover e copular. O tratamento na fase adulta também pode ocasionar esterilidade, com maior perspectiva para insetos que apresentam intensa atividade de síntese protéica associada à reprodução (vitelogênese), produzindo proteínas do vitelo, total ou parcialmente, durante a fase adulta, seguida de maturação ovariana e do desenvolvimento dos oócitos.

Entretanto, os resultados evidenciados são em condições de confinamento em laboratório. Em campo, possivelmente ocorra baixa exposição do adulto, uma vez que a inibição da alimentação provavelmente se sobrepõe aos demais efeitos fisiológicos ou tóxicos.

Em linhas gerais, é possível considerar que os insetos adultos que se alimentam do mesmo substrato alimentar dos imaturos possuem maior dificuldade de colonizar plantas com derivados de Nim quando comparado a insetos que se alimentam de substratos distintos. Os limonoides, então, dificultam o reconhecimento do hospedeiro pela praga em função dos estímulos que promovem a irritação, a locomoção e, consequente, a dispersão da praga. Portanto, os limonoides podem ser qualificados como repelentes com baixa capacidade de difusão.

* Márcio Alves Silva é Professor Adjunto da Universidade Estadual do Piauí; José Djair Vendramim é Professor Titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo.

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