Produção e consumo de fécula de mandioca no Brasil

Categoria Geral - 8 de agosto de 2019

Por Fábio Isaías Felipe*

A indústria de fécula (amido) de mandioca surgiu no Brasil na década de 1950, com as primeiras unidades industriais instaladas em Santa Catarina. As mudanças estruturais mais significativas, porém, foram acontecer apenas nos anos 1990 (CARDOSO E SOUZA, 1999).

Os anos 2000, por sua vez, foram marcados pela entrada de novos investidores no setor – especialmente por parte de grupos multinacionais –, e por mudanças institucionais e econômicas. Foi neste período, inclusive, que o Cepea iniciou o levantamento de preços da raiz, da fécula e de farinha de mandioca, passando a ser a principal fonte de informações para a cadeia produtiva. E desde 2004, o Cepea realiza o “Censo da Indústria de fécula no Brasil”, que se tornou referência para a tomada de decisão por parte de agentes envolvidos tanto no mercado de mandioca e como na formulação de políticas públicas.

Em função do advento da industrialização de mandioca dos anos 2000, o parque industrial brasileiro é um dos mais modernos do mundo. A capacidade instalada no País é para a moagem de 21,4 mil toneladas de raízes por dia, concentrada no Paraná, em Mato Grosso do Sul e no estado de São Paulo. Nos últimos anos, até foram observadas instalações de firmas em outros estados, mas estas foram desativadas, seja pela falta de matéria-prima ou por aspectos relacionados ao mercado.

Em 2018, foram produzidas 536,6 mil toneladas de fécula de mandioca Brasil, tendo expressivo avanço de 27% frente ao ano anterior – que, ressalta-se, foi a menor desde 2004. Este ponto evidencia um dos grandes entraves na indústria, a ociosidade industrial, que é resultado das características da produção agrícola e também da ausência de arranjos institucionais.

Com a capacidade instalada atual, considerando-se – um total de 280 dias trabalhos no ano e um rendimento médio de amido de 26%, seria perfeitamente possível se produzir um volume superior a 1,5 milhão de toneladas. Para atingir esse resultado, contudo, é necessário a busca por relações contratuais que venham a garantir o abastecimento das firmas.

Mesmo com os entraves que se observam no setor, a indústria de fécula brasileira tem mantido o número de empregos diretos, que, em 2018, ficou acima de 3,4 mil, segundo dados do Cepea. Além disso, o Valor Bruto da Produção (VBP) desta cadeia de produção ficou acima de R$ 1,3 bilhão no mesmo ano, crescimento de 8% frente a 2017.

As fortes sazonalidades na produção e consequentemente no preço da mandioca e dos derivados tiveram efeitos sobre o consumo nos últimos anos, especialmente com a migração de alguns mercados para o amido de milho – que são os casos das indústrias de papel e de papelão e do setor têxtil. Porém, a quantidade consumida se consolidou na indústria de massas, biscoito e panificação, nos frigoríficos, atacadistas e, mais recentemente, na indústria de tapioca. Um ponto de destaque é que, em 2018, mais empresas comercializaram o derivado por meio de contratos.

Os dados apresentados indicam que têm sido observadas mudanças na dinâmica da indústria de fécula e também no consumo do derivado. O setor de fécula ainda tem grande potencial, mas, para que cresça ainda mais, é preciso minimizar as sazonalidades de produção e de preços e tentar impulsionar as exportações – este último pode ter suporte diante do recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

*Fábio Isaías Felipe Pesquisador do Cepea

Artigo originalmente publicado em 07/08/2019


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